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Farmacologia Sistema Nervoso Central
Dr Luciano Augusto de Jesus

Noções gerais

 

Os fármacos que agem no sistema nervoso central (SNC) são prescritos, em Odontologia, para:

  • controle da dor aguda e crônica (anestésicos gerais, anestésicos locais, analgésicos opioides, corticosteroides e os relaxantes musculares);
  • reduzir a temperatura corpórea elevada (antitérmicos);
  • controlar náuseas e vômitos (antieméticos);
  • induzir o sono e controlar a ansiedade (benzodiazepínicos).

Como esses fármacos podem influenciar o SNC?

 

Esses fármacos podem influenciar o funcionamento do SNC:

  • de maneira seletiva;
  • ou generalizada.

 

Os benzodiazepínicos apresentam efeito seletivo atingindo mecanismo molecular identificável e único em células-alvo. Eles potencializam o neurotransmissor ácido aminogamabutírico (GABA), um potente neuroi­nibidor, abrindo os canais de cloreto, hiperpolarizando a célula nervosa, reduzindo sua excitabilidade.

 

Outros fármacos de ação central seletiva:

 

  • anticonvulsivantes,
  • fármacos na doença de Parkinson,
  • analgésicos opioides,
  • antieméticos,
  • antidepressivos e
  • ansiolíticos.

 

Os anestésicos gerais inalatórios são exemplos de fármacos com ação inespecífica (não seletiva) em sistema nervoso central. De maneira geral, eles provocam modificações físico-químicas da membrana celular nervosa, sem interação com receptores.

 

Quando um fármaco age em diferentes subtipos de receptores, pode fazê-lo com diferente afinidade?

 

A adrenalina tem afinidade igual em receptores α e β.

A noradrenalina tem afinidade reduzida em receptores β2.

Um fármaco, que se mostra altamente específico em baixa concentração, pode exibir ações não específicas quando administrado em altas doses.

A fenilefrina, agonista α1, em altas doses estimula receptores α2, β1 e β2.

A dopamina em doses baixas apresenta poucos efeitos adrenérgicos. Pela sua atividade em receptores dopaminérgicos nos rins, é indicada para obtenção de vasodilatação renal e aumento de diurese. Em doses maiores pode aumentar a contratilidade e o débito cardíaco e reduzir o fluxo sanguíneo renal.

 

Exemplos de fármacos com ação em receptores no sistema nervoso central e periférico

 

Benzodiazepínicos

São agonistas em receptores GABA-A, aumentando a sua atividade.

Potencializam o sistema inibitório GABAérgico, atuando em receptores específicos. Os benzodiazepínicos abrem os canais de cloreto.

Suas principais diferenças são farmacocinéticas (início e duração de ação)

Causam sedação, hipnose, amnésia anterógrada, ansiólise e têm propriedades anticonvulsivantes.

Seus principais efeitos adversos são: ataxia, sonolência e tontura. A depressão respiratória é um efeito adverso raro, passível de ocorrer se associar benzodiazepínico com outros depressores do sistema nervoso central, por exemplo o álcool. São fármacos mais seguros que os barbitúricos e ainda apresentam um antagonista específico, o flumazenil.

Diazepam (protótipo do grupo), alprazolam, clonazepam, lorazepam e midazolam são exemplos de fármacos benzodiazepínicos.

 

Relaxantes musculares de ação central

Esses fármacos agem no SNC e deprimem preferencialmente os reflexos polissinápticos espinhais em relação aos reflexos monossinápticos. Podem agir, também, de maneira direta na musculatura, aliviando os espasmos.

Sua atividade relaxante muscular pode ser resultado direto do efeito sedativo causado por esse grupo de fármacos.

Exemplos: ciclobenzaprina, baclofeno, carisoprodol e dantrolene.

A ciclobenzaprina tem relação estrutural com os antidepressivos tricíclicos (amitriptilina), apresentando pois efeitos anticolinérgicos (xerostomia, aumento da frequência cardíaca e visão borrada parecidos. Apresenta efeitos sedativos.

O baclofeno é um agonista dos receptores GABA usado para espasmos resultantes de trauma ou patologias na medula espinal. Seus efeitos colaterais limitam sua prescrição. São eles: confusão, sedação, fraqueza muscular, depressão respiratória e convulsões).

O carisoprodol não determina relaxamento direto do músculo esquelético. Ele atua ao nível do SNC diminuindo os reflexos polissinápticos e bloqueando a atividade interneuronal na formação reticular descendente e na medula espinhal. Os  efeitos colaterais mais comuns são a hipotensão postural, sonolência e vertigem.

O dantrolene inibe a liberação de cálcio do retículo endoplasmático, produzindo relaxamento da musculatura esquelética. É fármaco usado para prevenção ou tratamento da hipertemia maligna. Como efeitos colaterais apresenta: náusea, hipercalemia, hepatite e fraqueza muscular.

 

Cetamina

Anestésico geral é antagonista glutamatérgico em receptores N-metil de aspartato (NMDA). Seu uso apresenta como propriedades farmacológicas: a sedação, a hipnose e a analgesia. Causa menos depressão respiratória em comparação a outros anestésicos gerais. Estimula o débito e a frequência cardíaca, devido as suas propriedades simpaticomiméticas.

 

Bloqueadores neuromusculares

Bloqueadores neuromusculares interrompem a transmissão de impulsos nervosos na placa motora (junção neuro-muscular), promovendo relaxamento da musculatura esquelética. São indicados para o relaxamento na anestesia geral. São classificados em não despolarizantes e despolarizantes.

Não despolarizantes (atracúrio, vecurônio, mivacúrio e pancurônio) competem com a acetilcolina bloqueando sua ação nos receptores. Com isso, não ocorre a despolarização, com consequente relaxamento muscular e paralisia respiratória.

Despolarizantes (succinilcolina) não permitem a repolarização da placa motora, causando paralisia muscular.

 

Atropina e escopolamina

São fármacos anticolinérgicos. Eles se ligam em receptores colinérgicos muscarínicos (ligação reversível), impedindo a ligação da acetilcolina em seus sítios de ação. Esses fármacos são para reduzir a salivação, são antagonistas em receptores muscarínicos. A escopolamina é mais potente que a atropina para esse fim.

 

Atropina

Escopolamina

Menor efeito sedativo

Maior efeito sedativo

Menor efeito anti-sialogogo

Maior efeito anti-sialogogo

Maior aumento da frequencia cardíaca

Menor efeito na frequencia cardíaca

Maior relaxamento da musculatura lisa

Menor relaxamento da musculatura lisa

(Comparando os efeitos da atropina e da escopolamina.Efeito sedativo x efeito anti-sialogogo x aumento da frequencia cardíaca x efeito na musculatura lisa)

 

Pilocarpina e cevimelina

A Pilocarpina  tem ação agonista colinérgica (receptores muscarínicos, musculatura da íris e glândulas de salivares). É indicada para controle do glaucoma.  Usada para aumentar a salivação. É agonista em receptores muscarínicos. Seus principais efeitos colaterais são: irritação nos olhos, cefaléia, redução da acuidade visual.

A Cevimelina é um fármaco novo para tratar xerostomia, aprovado recentemente pela FDA. Como a pilocarpina, a cevimelina está indicada na xerostomia em pacientes geriátricos, com Síndrome de Sjogren e pacientes submetidos a radioterapia em tumores na cabeça e pescoço.

Esses fármacos exigem cautela nos pacientes portadores de doenças cardiovasculares (infarto do miocárdio e angina pectoris).

 

Adrenalina e efedrina

São exemplos de agonistas α e β. A adrenalina é o protótipo dos fármacos que imitam o sistema nervoso simpático. É mais potente que a noradrenalina em receptores α-adrenérgicos. Também ativa os receptores β.

 

Noradrenalina

Neurotransmissor endógeno liberado de terminações simpáticas pós-ganglionares. Ação agonista α e β1, produz grande vasoconstrição venosa e arterial.

 

Fenilefrina

Não catecolamina sintética agonista α1. Estimula a liberação de noradrenalina nas terminações nervosas. É menos potente e mais duradoura que a noradrenalina.

 

Metildopa e clonidina

Usadas como anti-hipertensivos, são agonistas α2.

 

Propranolol e o atenolol

Prescritos como anti-hipertensivos e no controle somático das manifestações de ansiedade, são antagonistas β -adrenérgicos.

 

Fluoxetina, paroxetina e sertralina

Usadas como antidepressivos, bloqueiam a recaptação de serotonina, agindo em receptores serotoninérgicos.

 

Prometazina

Prescrita como anti-histamínico e para o controle da ansiedade, é um antagonista em receptores histaminérgicos. Apresenta efeitos sedativos moderados, acentuada atividade anticolinérgica e efeitos antieméticos.

 

Levodopa

Precursora da dopamina, recomendada na doença de Parkinson. É um fármaco agonista dopaminérgico.

 

Felipressina

Vasoconstritor não adrenérgico associado ao anestésico local, imita a ação do hormônio vasopressina, agindo em receptores V1A.

 

Opioides

Ativam o sistema opioide endógeno e causam analgesia, sedação e amnésia.

Os opioides, codeína e morfina, são indicados em dores de intensidade moderada a intensa, respectivamente.

Esses fármacos apresentam um antídoto, em caso de depressão respiratória com o seu uso, a naloxona, que age como antagonista específico em receptores opioides.